Introdução

De tempos em tempos alguém me dizia: 'Você  precisa escrever um livro.' Ao que respondia para mim mesma: 'Não, não preciso!'

Por vezes, depois de ter dito alguma coisa ao meu  analisando, ouvia algo parecido no consultório: 'Vou esquecer o que você disse. Por que não escreve isso num livro?'

Mas o que eu dizia, vinha como efeito do que eu escutava deles, não era premeditado como numa escrita. Então, desde onde 'só eu escutava', de novo eu respondia:

Não, eu não preciso escrever isso num livro, pois isso, em mim, já está inscrito.

Nas aulas que ministro, nas palestras, nos grupos de consultoria nas empresas, sempre escutando o mesmo pedido...

'Onde posso ler isso que você disse agora?'; 'Você tem isso escrito?'; 'Pode nos passar esse material?'

Mas que material? - pensava eu. - Pois o que eu havia dito é resto de muita leitura e já não saberia mais situar onde eu li.

A verdade é que já nem sei  mais o que é meu e o que é do outro quando falo. Alguém sabe? Existe o ser original? O criador sem influências? O expectador que não leve consigo parte do espetáculo que assistiu e que dali saia transformado e ampliado? Penso que não.

Quando o Facebook e o Twitter chegaram, comecei a escrever frases por puro prazer, sem compromisso com ninguém, e logo via as frases compartilhadas por outros, curtidas, 'retuitadas',  citadas ou apenas reproduzidas sem ser citada a sua origem.

E, mais do que nunca, a frase que me era conhecida, chegava agora através das pessoas que comentavam na rede: 'Você precisa escrever um livro!'

Um dia, ao olhar a quantidade de escritos meus  na internet após um ano, entendi que, mesmo que eu não tenha escrito um livro, alegando que 'não precisava', o livro que eu nunca quis escrever escreveu-se de mim.

Eu nunca quis, mas o desejo inconsciente - como sempre, passa a perna no querer da gente e vai além. Querendo ou não o desejo dá provas de que não se pode fugir daquilo do que se é efeito.
 
Palavração Comovida.
 
Um livro que aconteceu em mim, como a vida. A palavra deixou de ser apenas vocábulo e virou ação.

Com 30 anos vividos em análise, as palavras perdem seu sentido, que até então pareciam tatuadas na carne. Criam centenas de outras significações, mudam completamente de sentido, ficando assim o real da vida em carne viva.

A vida não tem sentido prévio e o que pode parecer triste é também o que nos possibilita inventar a nossa própria história - qualquer uma que pagarmos o quanto custa para sustentá-la.
                                                           
E talvez apenas meu analista saiba - salve, salve, Perci Schiavon - que precisei abrir tantos buracos na alma quanto os poros que tenho na pele para chegar até aqui sem soçobrar. Foram ações que escreveram o livro e não intenções.

Algumas vezes comovida por fatos do dia a dia, outras por uma leitura antiga, mas sempre por algo que comi, pois a vida é o meu melhor alimento.

Eu como a vida, depois falo e escrevo para tentar digeri-la.

Porém, nada do que escrevo quer ser novidade, pois tudo já li ou ouvi em outras palavras. Aqui, a meu modo, jazem os restos da leitura de outros e de como vejo a vida até este ponto.

Escrevo para exercitar, escrevo para não me esquecer, escrevo para me ler.

Não pretendo que seja um livro de autoajuda, como aqueles que querem ensinar algo a alguém,  mas é claro que, se acaso a mais alguém - além de mim - o escrito possa servir, já terá valido mais  que a pena escrevê-lo.

Mas vale lembrar que qualquer idiota escreve um livro hoje em dia, até eu.

Bom é ter marido apaixonado e estimulante que quando me ouve dizer algo como essa última frase, rebate com outra: 'Não! Você não escreve como qualquer um, sua precisão é cirúrgica nas coisas que diz.'

Agradeço a Charles, meu amor!

Mas resto sem saber se isso é um elogio ou um lamento, depende sempre do momento e da entonação em que ele me diz...

De modo geral, ele me ajuda a pensar que isso que escrevo pode ter alguma utilidade, sem esquecer que o ato cirúrgico pode curar mas também é cortante, provoca dor e deixa cicatrizes...
                                                                                                                       
Aos que me estimularam na escrita por tantos anos, dentre eles minha filha, meu irmão e analisandos. E aos que agora pela primeira vez me leem...

Caríssimos, agradeço pela companhia.

Gilceley Santos