Prefácio

Do blog aos 'twitters' da Gilceley
por Inês Ribeiro

Se você quiser ter uma boa panorâmica do que seja o trabalho da Gilceley, enquanto psicanalista, não deixe de ler o seu blog e deliciar-se com os seus 'twitters'.

Gilceley consegue corajosamente falar de uma série de questões que são tabus na nossa cultura, particularmente no que se refere ao sexo e os recalques que incidem sobre ele, de uma maneira clara, com uma linguagem que foge ao 'psicanalês', permitindo entendimento para qualquer um que tenha interesse no funcionamento da mente humana.

Questionando uma série de comportamentos, que são tantas vezes censurados em nossa cultura como, por exemplo, o casamento gay, Gilceley denuncia a hipocrisia em nossa sociedade, que com postura moralista 'normativiza' a sexualidade.

Numa linguagem clara e accessível, reafirma Freud dizendo ser a neurose o negativo da perversão e mostra que muitas vezes posturas moralizantes, nada mais são do que expressão de desejos perversos recalcados. Desejos perversos quando expressos simbolicamente, são expressão saudável, matéria prima de qualquer trabalho artístico. Bem distinto da negação ou renegação da Lei, que partindo para a ação, elimina o outro enquanto alteridade, fazendo prevalecer a barbárie. Gilceley denuncia as diversas formas como isto comparece, disfarçadamente, na mídia, na política, na educação...

Se no seu blog encontramos, de maneira bem mais desenvolvida, todos estes temas através de palestras por ela proferidas, considerações sobre determinada situação clínica, crônicas ou ainda entrevistas, nos seus 'twitters' temos o tempero de tudo isso.

Passemos aos 'twitters' da Gilceley!

Como voa este pássaro Gil!

Quando consegue pousar, Gil nos oferece suas 'twittadas', que nos fazem pensar, refletir, concordar, discordar e, quando vemos, já estamos com ela em movimento. Isto porque parte do entendimento que vida é pulsação ininterrupta. Suas reflexões decorrem de um desejo honesto de ser coerente com o que sente, com o que pensa e com o que vive. E não há como ficar imune a este estímulo. Faz querermos o mesmo em relação aos nossos pensamentos, o nosso sentir, a nossa vida.

Sua visada é abrangente, vai desde questões referidas a um cotidiano, até questões bem mais amplas, tais como o que é a liberdade, o desejo, o sentido da vida, a razão da escrita. Sua reflexão sobre delícias e agruras no relacionamento humano, por questões de ordem sexual, gênero, cultura, nos traz para o século XXI. Questiona o que seja qualidade de vida, saúde mental, neurose.

Num voo livre com este ágil pássaro que se vale da amplitude do diálogo com o emprego das redes sociais, destaquei algumas de suas 'twittadas' dentre as muitas com que nos brinda.

'Ninguém consegue tirar férias de si mesmo'.
Nada mais verdadeiro do que esta afirmação. Não adianta querer ser outro, corresponder à expectativa do outro, pois quer queiramos ou não, as aparências não enganam. Evidentemente que isto não significa que não possamos nos trabalhar para alcançar muitas das modificações desejadas. E aí então, Gilceley é generosa nos seus apontamentos.

'Angústia? É ela que nos faz buscar o remédio, impondo morte ao ego narcísico' ou ainda quando diz da importância do silêncio para podermos ir além, concluindo que o mundo deve ser reinventado a partir de si mesmo.

'Ter a morte sempre viva em pensamento, ao contrário do que diz o melancólico, pode ser um excelente estímulo para a vida!'

Também não custa lembrar que 'não há como ser compreendido plenamente' ou ainda 'não sofremos por um passado triste e sim pela forma como o interpretamos'.

Com estes apontamentos vai positivando a vida, parafraseando Caetano no que diz, 'Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é'.
Suas 'cutucadas' na neurose são também um incentivo à mudança. Distinguindo o simples do difícil afirma: 'A vida usufruída sem a dramaticidade neurótica é simples, mas não é nada fácil o caminho necessário para se chegar a isso.'

'Tentar evitar o sofrimento a qualquer custo é garantia de mantê-lo firme e forte'.

Denuncia o vício a qualquer droga, considerando o estacionamento em situações de vida, por mero comodismo, inércia, também como droga que vicia.

'O espírito de porco gira em torno da mesma porcaria.'

Incentivando à cura 'twitta': 'O fracasso não está no ato de errar, mas na desistência de continuar a aprender até acertar.' E conclui, 'O melhor aprendizado é quando aprendemos a apreender.'

Nesta leitura esbarramos ainda com citações de pensadores que sustentam o rumo da prosa da Gilceley: Vai de Nietzsche,'E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música' a Shakespeare, 'Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito', lembrando Simone de Beauvoir, 'Ninguém nasce mulher, torna-se mulher', e Fernando Pessoa, 'Tudo vale a pena quando a alma não é pequena'.

As indicações da Gil são tanto terapêuticas quanto preventivas e não são poucas as estocadas que ela dá quando fala de educação. Critica o ensino tradicional, sugere novas perspectivas e incentiva pais e educadores a estimularem seus filhos e alunos a ganhar autonomia na vida.

'Ser pai/mãe é tornar-se desnecessário.'

Acrescenta: 'Os pais deveriam deixar claro para as suas crianças que elas não são um eixo em torno do qual giram as vidas deles. Para o bem de todos! Do mundo todo!'

E dá recados diretos: 'Um homem estará mais pronto para uma relação de casal quando adulto, quanto mais a sua mãe lhe deixar claro na infância que ela não é a sua mulher'.Mas não só para as mães Gil dá o seu recado. Ela se dirige especialmente à nova mulher, que superando o feminismo acolhe a feminilidade:

'Contrariando a antiquada ideia feminista, acredito que as mulheres que desenvolvem algo da ternura materna na relação com os seus homens têm mais chances de conseguir um relacionamento gostoso e duradouro com eles. O feminismo trouxe a elas muito de libertador, mas por outro lado, condenou muitas delas à solidão. No concorrido MERCADO por homens que valem a pena, sairá na frente aquela que souber acolher também o menino dentro deles.'

Valoriza o 'eu te amo' recíproco, mas diz ser melhor ainda quando as 'atitudes' terminam por dizer: 'eu te amo'.

E vou ficando por aqui caro leitor, pois não posso tirar-lhe o gostinho da descoberta, desta rica coletânea com tantos matizes diferentes. Sugiro que deixe comparecer em você as suas asas e se prepare para se entregar a um belo vôo livre onde certamente encontrará muito a desfrutar!

'Olhando o vento pode se ver a terra respirar!'

Inês Ribeiro
Psicanalista