'Estranhos Fantasmas' nas Empresas

- Da função possível para a Psicanálise nas empresas. -

Tudo que aprendemos na infância, de certo e de errado, está em nós, fazendo de cada UM vários ao mesmo tempo. Como se relacionar bem com o outro sem sequer se saber quem é? O primeiro estranho a me causar problemas de relacionamento é, antes de qualquer coisa, 'O ESTRANHO EM MIM'.


Como evoluir sem ter conhecimento de quais são as portas que estão fechadas, e sem saber como encontrar as chaves? Um pouco deste saber, e uma escuta adequada na empresa, podem apontar e facilitar para todos uma separação entre um e outro. Primeiro a separação deste UM que penso que sou, daquele do OUTRO - inconsciente que me constitui e me rege. Depois deste OUTRO inconsciente tornar-se menos estranho a mim, viria a separação entre 'um' - eu - e o 'outro' - colega de trabalho. Escritos assim em minúscula, como fazia Jacques Lacan, para diferenciar em qualidade e importâncias.

Com essa premissa, minimizamos entraves tão comuns que acontecem nas relações cotidianas e que nos levam a confundir aquilo que ele disse com aquilo que eu ouvi e penso que entendi. Nosso entender é sempre limitado ao que sabemos de nós próprios. Nossa escuta é poluída, seletiva e projetiva.

Havendo alguém habilitado para exercer a função de intermediário, de ponte, de 'analista na empresa', muitas das limitações de entendimento mútuo podem ser amenizadas. Mesmo assim, não seria possível atingir a todos, pois nem todos estão interessados neste autoconhecimento. Uma estatística feita em empresas demonstra que 30% das pessoas desejam mudar, 40% ficam em cima do muro e os 30% restantes se recusam a aceitar a ideia. E que no final da ação essa proporção é outra: 70% querem mudar, 10%, ou seja, um terço daqueles que se recusavam a pensar no assunto se converteram e 20% continuavam resistindo. Caso uma transformação de filosofia seja uma imposição da organização, sem a qual não é possível o trabalho ter continuidade, estes 20% serão demitidos.

Não somos tão otimistas, percebemos um índice ainda menor de transformação obtida, porém, com consequências satisfatórias desde que o trabalho de escuta seja mantido. O ideal seria que o profissional com a função de intermediário, certamente alguém da área de recursos humanos, estivesse preparado, estivesse em dia com a sua história passada, ou que ao menos ele tivesse a escuta livre de 'pré-conceitos' e de interpretações projetivas. Este seria o profissional adequado para fazer a ponte e a suspensão dos entraves de comunicação que surgissem no caminho. Outra alternativa é a empresa contratar um 'analista para uma consultoria de relacionamentos', sem vínculo empregatício, para fazer esta ponte. Não seria apenas um consultor, mas alguém analisado, 'desatado' de compromissos com a empresa e de suas próprias 'neuras'. Um sujeito que não corresse riscos diante da hierarquia poderia ser ainda mais neutro em suas intervenções. Mas um bom profissional de recursos humanos deveria estar bem preparado para este fim, afinal não seria esta a proposta maior e inicial desta função? O conhecimento pessoal faz com que as verdadeiras razões de entraves nos relacionamentos apareçam e com isso as relações se ampliem de forma mais 'includentes'. Antes disso, tendemos à exclusão de tudo que não é espelho de nossas projeções.

O prazer pode e deve ser um alvo para atingirmos em nossas relações e em nosso trabalho. Um sujeito que tem relações mais abstraídas, menos preconceituosas, menos neuróticas, porque foram resolvidas, certamente será alguém mais capaz, mais produtivo e mais realizado. Da criança que fomos, devemos preservar o que tivemos de melhor, o que ainda nos serve como força para investir em coisas que nos dão prazer, independente do que os outros vão pensar deste investimento.

Quando éramos crianças ainda muito pequenas, não nos preocupávamos em saber se estar com as mãos sujas na hora do jantar era bom ou ruim, queríamos comer e pronto. Não nos importava se o outro queria ou não comer morango com feijão. Se queríamos, fazíamos a mistura. Os desejos infantis não eram postos sobre julgamento, mas com o passar do tempo tudo foi mudando, nada mais foi espontâneo e os entraves da cultura começaram a recalcar estes desejos de todas as formas. Então, a criança espontânea fora sendo sufocada pela outra, a civilizada, que após sofrer ameaças da perda do amor familiar e receber castigos disciplinatórios, aprende bem a cartilha da 'boa educação'.

São os mesmos fantasmas da infância que nos assombram quando adultos.

Devemos investigar estes tenebrosos medos infantis, para que possamos ver seus verdadeiros rostos e restos nefastos, para 'desconfundir' o passado do presente e com isso perder o medo de ser o que somos, de ir além. As relações humanas nas empresas, como em qualquer outra área, dependem deste autoconhecimento. Um sujeito de bem consigo mesmo, que foi capaz de reconhecer este entranho que é ele mesmo, é capaz de se relacionar bem com o mundo. Mas o preço de se saber, de se conhecer, de aceitar seus limites é caro demais para a maioria de nós. Queremos ser bem tratados mas não nos ocupamos em bem tratar nossos colegas de trabalho. Queremos ser ouvidos mas não sabemos ao certo se sabemos ouvir, queremos o melhor sem saber se o meu melhor é o melhor do outro. Queremos muito, mas, o que damos em troca deste desejo?