O Adulto Trabalha como a Criança Brincava

O que a psicanálise pode oferecer para as empresas se ela propõe que a melhoria das relações e da qualidade de vida dos funcionários depende de um trabalho de autoconhecimento?

A sua função, como única intervenção possível na cultura, é propiciar a reflexão sobre temas fundamentais que não são postos em discussão em outras abordagens teóricas e práticas. Uma vez que os indivíduos coloquem em discussão nas suas vidas o que realmente pode ser a única forma abrangente de transformação, a ilusão da busca por transformações fáceis, rápidas e milagrosas diminui, possibilitando que um número maior de pessoas passe a refletir e a mudar os seus comportamentos a partir destas reflexões.


Através da incitação à reflexão de temas fundamentais que limitam e adoecem física e mentalmente a vida de cada um, pode-se dar aos indivíduos uma direção na busca de soluções para os seus problemas, oferecendo o que acredito ser a mais eficaz forma de transformação real. Esses problemas englobam a vida como um todo e - inexoravelmente - irão influir e prejudicar as relações de trabalho caso não sejam solucionados, bem como fora dele também.

Você se lembra o quanto era chato brincar do que os outros queriam e você não?

Agora, quanto tempo você era capaz de brincar de algo que gostava, sem lanche, sem descanso, com muita atenção e pouquíssimo erro? Às vezes, não tinha de ser carregado para o banho ou para mesa de jantar à força? Isso quando não sofria até o corpo não aguentar mais, para só então parar com aquela atividade.

Hoje as pessoas não param de falar em STRESS, apesar de terem se tornado 'adultos' e a sua força física, em sua maioria, ser ainda maior do que na infância. A explicação é óbvia: havia prazer no que fazíamos.

É claro que o bom ambiente de trabalho, o reconhecimento, a remuneração adequada, a perspectiva de evolução, além de outros fatores, devem ser considerados, mas executar uma função que lhe de prazer é fundamental. Também as relações de coleguismo na empresa são uma condição indispensável para obtenção de bons resultados.

Quando um sujeito não tem prazer na sua atividade e a sua dignidade é desrespeitada, quando ele recalca os seus desejos e passa a tratar a sua função como uma necessidade e não como algo que lhe dê um sentido a mais, o trabalho vira desgaste.

A falta de atenção e o consequente recalcamento de desejos constituídos na infância - desejos estes que são as verdadeiras aptidões no profissional de hoje - serão degradantes e isso trará consequências desastrosas para o indivíduo, apresentando sintomas destrutivos na sua vida pessoal e nas relações de trabalho, principalmente quando temos no ambiente um lugar apenas de competição, de sobrevivência e de trocas de agressividade.

A agressividade negativa vem de um lugar desconhecido para aquele que a expressa e é preciso que reconheçamos de onde ela vem. É preciso saber quem está no comando nestas ocasiões.

Sem estes elementos acessíveis à consciência, nós simplesmente seguimos as normas e damos à empresa - no máximo - o que ela nos pede, trocando horas de trabalho por remuneração.

Quando temos a nossa individualidade considerada, tornamo-nos quase autônomos e lutamos pela realização profissional e pelo crescimento da empresa. Este profissional será mais produtivo e realizado. Torna-se possível, então, que ele não projete as suas frustrações e os seus limites pessoais para outros membros da equipe.

Só conseguimos promover mudanças em uma empresa, principalmente no que diz respeito a relacionamentos problemáticos, com o comprometimento das pessoas. Para que os funcionários possam se envolver verdadeiramente só há um caminho: eles precisam se autoconhecer.

Para flexibilizar problemas de relacionamento no trabalho, precisamos mudar as nossas crenças rígidas pessoais. Estas, muitos irão chamar de 'valores pessoais', 'critérios pessoais', o que também pode, por outro lado, ser entendido mais como 'pré conceito', ideia fixa, rigidez, apesar de não ficar bonito quando dito desta forma.

Mas como fazer esta mudança?

Uma possibilidade é promover, ao grupo de trabalho, acesso a uma reflexão mais profunda.

Levar a carreira para o divã traz autoconhecimento. É, sim, uma terapêutica em certo nível e pode-se executar isso com foco no trabalho. Muitos treinamentos que existem no mercado pecam porque são insuficientes e até superficiais. Muitos consultores se limitam em transmitir uma carga de informação puramente racional e ninguém muda em um seminário ou em um retiro de dois dias.

É preciso fazer um trabalho com as afetações de cada UM para que o sujeito possa entender as suas dificuldades com a complexidade que elas comportam. A mudança precisa ser estrutural. Só assim pode-se agregar valor, substituir referências antigas, revirando a forma de pensar, e possibilitar um novo comportamento, já que tudo que fazemos é regido pelo pensamento herdado dos outros. E quase sempre, ainda hoje, o que nos guia é um pensamento infantil.
A criança que sabia liderar os seus coleguinhas em uma brincadeira de escola é a mesma que hoje lidera equipes na empresa. Bem como aquela que tinha dificuldades de brincar em grupo, hoje sente os mesmos obstáculos, senão maiores, nas relações atuais.

Liderança, no entanto é diferente de chefia. Normalmente um chefe é colocado na posição de líder, mas o máximo que ele consegue é ser temido. O respeito vem de outro lugar. O chefe pode ter chegado a esta posição por qualidades técnicas, apesar dos seus inúmeros limites nas relações com as pessoas, o que torna o trabalho uma constante batalha para os seus descendentes hierárquicos e também para ele, que sofre diariamente por não conseguir dos seus subordinados a atenção que precisa, nem o esforço que deles gostaria de obter. O chefe é como aquele colega que ninguém gostava de jogar com ele mas, como ele era o dono da bola, todos o aguentavam na brincadeira, embora na primeira oportunidade ele fosse 'sacaneado'. Na hora da festa, ninguém o convidava.

O inconsciente como patrão.

A maioria dos consultores apresenta soluções mágicas para uma mudança nas relações de trabalho. A mudança racional é rápida e efêmera. Uma mudança consistente exige atuação que atinja camadas recalcadas da história de cada UM. É preciso resgatar sonhos perdidos, desfazer medos infantis, rivalidades, dificuldades pessoais de relacionamento embasadas em acontecimentos passados. De nada adianta a pessoa saber intelectualmente o que deve fazer no trabalho se não estiver emocionalmente preparada para abandonar valores equivocados trazidos das suas referências anteriores.

É por isso que as empresas estão repletas de chefes capazes de discursar sobre liderança, que falam sobre o ser humano como sendo o seu foco principal, mas que no dia a dia tratam seus funcionários como objetos inevitáveis e necessários, quase sempre como foram eles mesmos tratados por seus pais.

Hoje, estes sujeitos reproduzem o mesmo comportamento com os outros automaticamente, sejam eles seus subordinados ou pares. Automatizam a repetição dos mesmos comportamentos herdados dos seus pais, mesmo que tenha sido um tratamento que ele abominou, mas que apreendeu e já não consegue mais fazer diferente.

No máximo, o que se repete é: ora uma posição infantil diante do pai; ora uma posição paternal ou maternal diante do filho. Também é inevitável, quando diante de pares, que a 'irmandade' se estabeleça, ficando fácil detectar as disputas pelo amor, pelo lugar de preferência na relação com papai e mamãe - geralmente os seus superiores na hierarquia.

E o tal profissional imparcial que age de acordo com os fatos e não com o coração, ou ainda com referências no real? Aquele profissional limpo de história pessoal que não mistura trabalho com pessoalidades e recalques interiores? Aquele que não vê no par um concorrente pelo amor do outro, mas sim um absoluto aliado com foco voltado para a empresa e para o seu desenvolvimento? Bem, até então, ainda não tivemos o prazer de ser apresentados a este perfeito profissional.

Em 'treinamentos' padrões são oferecidas teóricas informações sobre o tema 'liderança', que não permitem realizar uma assimilação deste conteúdo de forma afetiva, e sabe-se que não se transformam seres humanos apenas com informações.

Logo, as suas referências estruturais - aquilo de que ele é 'efeito' - irão engolir este novo conhecimento, voltando a reger sobre ele aquele velho comportamento quase sádico, que é costumeiro encontrar nas empresas mal aparelhadas nos seus recursos humanos.

Quem manda no chefe?

O que rege o tal chefe são informações muito mais eficazes, pois inscritas no inconsciente.

Na verdade, são mais que informações, são inscrições, são significantes, são letras escritas em papel que antes era branco e que agora já não mostram mais o seu verdadeiro rosto. Estas inscrições significantes regem a nossa conduta e, pior, sem nem mesmo termos conhecimento do que nos causa.

O inconsciente, então, é o verdadeiro patrão, e deste chefe não se pode escapar jamais. O sujeito muda de emprego mas a tirania que atua sobre ele - uma vez adquirida na infância e não compreendida a sua origem na vida adulta - irá junto para onde ele for.

Apesar da dificuldade para transformar sujeitos automatizados na sua forma de agir e de pensar, as pessoas podem mudar, porque o inconsciente é atemporal, ou seja, nesta esfera não existe passado. Tudo é presente. Tudo que vivemos um dia, vive em nós e determina condutas ainda hoje. O que sugiro, e vejo os resultados quando bem executado, é reescrever novas páginas nesta história mal escrita, mal contada e mal entendida por cada um de nós. As pessoas, de modo geral, fazem uma leitura do presente via ferramentas, ideias, do passado.

Deslocar, abstrair, neutralizar, indiferenciar afetações primitivas que hoje causam problemas em nossas vidas são capacidades humanas, mas nem sempre são por nós bem utilizadas. A análise pessoal propõe colocar todas estas ferramentas em uso, NOVAmente.