A Angústia na Busca de Emprego

Desde Freud sabe-se que o ser humano é basicamente um ser constituído pelo OUTRO. Qual o meu lugar no desejo do outro(?) é, portanto, uma das perguntas fundamentais na constituição do ser. Desde que nascemos, tudo que fazemos recebe a aprovação ou a rejeição de alguém e, na infância, a opinião daqueles dos quais dependemos para viver é essencial.
Principalmente nesta fase, para obtermos qualquer forma de prazer, dependemos da aceitação deste OUTRO. Assim vamos nos constituindo e essa dependência nunca se desfaz totalmente.


É fácil constatar que, por menor que seja, a nossa preocupação com o que pensam de nós, ainda assim precisamos ser aceitos por nosso meio durante toda a vida. No momento em que se busca um emprego a questão que se coloca, portanto, abrange muito mais elementos inconscientes do que a nossa lógica racional pode vislumbrar. Este pequeno espaço lógico que habitamos acredita que as angústias desta busca giram em torno da expectativa de colocação profissional no mercado de trabalho, de conseguir uma forma adequada de sobrevivência financeira e/ou de status social. Mas, ao fundo de TUDO e, ao mesmo tempo, sobre TUDO, há também um núcleo afetivo de muito valor que dificilmente percebemos.

Todos, mesmo depois de adultos, buscamos ser amados. O amor, para qualquer um de nós que teve atenção afetiva de um outro na infância, foi fundamental para a nossa sobrevivência. Em tempo: consideremos o amor como algo não necessariamente só bom, mas que invariavelmente é um dos principais estruturante de personalidades.

Quando se está numa jornada de busca de emprego, as emoções vividas na infância, as inseguranças, os medos da perda de amor do outro, tudo que vivemos na nossa formação como sujeito, são revividos numa instância inconsciente e ao mesmo tempo as questões lógicas/racionais se impõem. Muitas vezes as emoções inconscientes infantis são infinitamente mais dominadoras neste processo. A diferença na quantidade/qualidade de angústia que cada um apresenta se dará em função destas experiências infantis. Não tenho aqui a pretensão de eliminá-la, até porque a angústia também é salutar em níveis suficientes, para nos mover adiante.

Mas se uma pessoa pode ir em busca de emprego com tranquilidade enquanto outro entra em pânico, as razões que explicam esta diferença podem ser encontradas na história passada de cada um. As Frustrações, os maus tratos, as perdas e/ou as disputas de 'lugar' na família, os traumas infantis de toda ordem determinam as dificuldades atuais, revelando assim as rejeições maiores vividas na sua história e que agora intensificam a reação desta pessoa diante de uma nova 'rejeição' em um processo seletivo, por exemplo. O que se quer, acima de TUDO, é ser adequado ao desejo do OUTRO para garantir este lugar de ser amado - na festa, no namoro, na igreja ou seja lá onde for que tenhamos nos relacionado com o outro.

Essa vontade de aceitação, 'por tudo e por todos', é uma neurose universal e, sem dúvida, assume proporções muitas vezes incontroláveis quando o indivíduo está em um processo no qual tenta a sua inserção no mercado de trabalho, onde, aí sim, a sua aceitação é mesmo necessária.

Por exemplo: alguém que nunca se sentiu adequado ao desejo dos pais, nesta busca de emprego pode sentir muita dificuldade para enfrentar o processo, enquanto outro que foi considerado 'o menininho lindo da família', pode se sentir extremamente seguro, tendo este fator de segurança como enorme aliado, o que disponibilizará vantagens ao candidato, conseguindo com isso, algumas vezes, resultados positivos superiores àquele que tem um currículo - comparativamente - mais adequado a vaga.

A simpatia, a forma de expressão, a sedução dos gestos, a facilidade em se comunicar, a disponibilidade para apreender, entre outros elementos são também decisivos em uma escolha. Sendo assim, para aqueles que se sentem excessivamente inseguros durante a busca de emprego, uma ideia produtiva seria, antes de insistir neste processo angustiante e cansativo, procurar ajuda profissional para entender e se desfazer de certas amarras psicológicas, que podem dificultar enormemente a sua aprovação nesta fase da sua vida. O ser humano é mais do que corpo, intelecto e currículo. Ele é também 'efeito', um 'resultante' de acolhimentos e rejeições anteriores. A cada nova inclusão ou exclusão vivida, uma pessoa pode ter este pequeno espaço lógico racional, absorvido por um espaço maior da sua mente inconsciente, que está esquecido, recalcado, mas que ainda provoca estragos imensuráveis em seu processo, caso não seja a tempo desvendado e neutralizado.

É preciso desfazer os medos de perda de amor e superar rejeições antigas para poder se colocar de forma madura, despida de temores e fantasmas infantis que aumentam a insegurança, dando a impressão, ao candidato, de que algo muito além de uma vaga de emprego está em jogo. Paradoxalmente, o medo exagerado de ser rejeitado pode ser justamente o elemento definitivo para a sua exclusão em um processo seletivo.